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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28349: (Ex)citações (448): Os Antigos Combatentes e os medicamentos. O desastre do Rio Zambeze, em Moçambique, no dia 21 de Junho de 1969 (Artur Conceição, CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Setembro de 2026:

Caríssimo amigo Carlos Vinhal,
Antes de tudo os meus agradecimentos pelo esclarecimento, pena que não chegue a muitas pessoas ainda muito mal esclarecidas em relação a benefícios dados aos antigos combatentes. No caso dos transportes é uma desgraça. No tocante às viúvas é um lamento. Só na minha aldeia são 6 viúvas, uma irmã, uma cunhada e duas primas. Pouco ou nada sabem.

Quem vai à Farmácia aviar os meus medicamentos é sempre a minha mulher. Ela sabe ou pelo menos ouviu dizer que os antigos combatentes tem direito a medicamentos gratuitos.
Cada vez que paga algo pelos meus medicamentos, reclama e é informada na Farmácia de que só não paga se usar os medicamentos genéricos. Quanto à eficácia de uns e outros não sinto nenhuma autoridade para me pronunciar.
Fui sempre muito anti medicamentos. Durante os dois anos de Guiné nunca tomei os comprimidos para o paludismo e contudo nunca tive tal coisa.

Depois de ter passado à disponibilidade, fui durante cerca de meio ano obrigado a levantar uma carga de medicamentos num Departamento Militar, situado na Rua da Estefânia.
A justificação era: como não tiveste paludismo na Guiné vais ter paludismo em Lisboa, mas com muito mais gravidade.
Ouvi um médico recém chegado ao Hospital de Bissau exclamar: dão Quinino à malta? Mas isto mata!
Penso que ele se referia ao celebre “Daraprin”.
Em Brá, onde estavam os três Grupos de Comandos e que no início do ano de 1965 tinham o apoio em termos de refeições, por parte da CCS do Batalhão 733. As praças tinham direito a comer em pratos, mas quando levantavam o prato às quintas-feiras estava por baixo o comprimido já descascado. Com o dedo médio em forma de bilharda lá vai ele para o mais longe possível.
Durante o tempo em que fui dador de sangue raramente os responsáveis pela tiragem acreditavam que ter estado na Guiné e não ter tido paludismo não era real. E lá vinha a picada no dedo que era mais difícil que dar sangue.

A tragédia referida em (2) é a tragédia do Rio Zambeze em Moçambique na tarde do dia 21 de junho de 1969. O batelão São Martinho naufragou com 150 homens e 30 viaturas a bordo.
Morreram 101 militares e 5 tripulantes.

Um grande abraço com votos de muita saúde
Sempre ao dispor
Artur António da Conceição


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2.  A TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE

O amigo Artur Conceição no seu Post anterior[1], quando referia o afundamento de uma jangada que tinha vitimado mais de uma centena, estava a falar concretamente da tragédia do Rio Zambeze, em Moçambique, ocorrida no dia 21 de Junho de 1969. Posteriormente enviou-nos uma listagem com os militares falecidos na transposição deste rio num batelão civil. Esta coluna militar deslocava-se de Lourenço Marques para Vila Cabral.

Pesquisando no Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Mortos em Campanha - Edição da CECA, Lisboa 2014, elaborei a listagem abaixo.

Honremos a memória destes nossos 101 compatriotas que cedo demais encontraram a morte.


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Transcrevemos, com a devida vénia, as páginas 716 a 718 do Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Aspectos da Actividade Operacional - Edição da CECA, Lisboa 2012:

A tragédia do Zambeze

Pelas proporções que assumiu merece referência específica, o acidente ocorrido em 21 de Junho de 1969 durante a transposição do R. Zambeze, em Chupanga, num batelão civil, por uma coluna militar que, de Lourenço Marques, se dirigia para Vila Cabral.

Assim, em 09 de Junho de 1969 uma coluna militar comandada pelo Alferes Miliciano do GAC 6, Oscar David Firmino do Rosário e composta por 150 homens (1 Oficial, 1 Sargento e 148 Praças) e 30 viaturas saiu de Lourenço Marques com destino a Vila Cabral a fim de transportar pessoal e material para diversas Unidades sedeadas ao longo do percurso Lourenço Marques - Beira, Inhaminga - Chupanga (R. Zambeze) - Mopeia - Quelimane - Nampula - Belém - Vila Cabral.

A viagem até Chupanga (na margem direita do R. Zambeze) decorreu sem incidentes mas, aí chegados, no dia 15 de Junho, verificou-se que o batelão que efectuava a transposição do rio, pertencente ao Senhor Amancio Pedreiro, se encontrava avariado. Dois meses antes do acidente o batelão sofrera alterações não autorizadas pela Autoridade Marítima que avisara o respectivo proprietário que não poderia utilizá-lo sem aprovação da Direcção Provincial dos Serviços de Marinha 12.

Por este motivo a coluna permaneceu em Chupanga até 21 de Junho data em que o batelão foi declarado reparado pelo proprietário.

Depois do Comandante da coluna ter perguntado ao dono do batelão se toda a coluna podia embarcar na mesma viagem e ter recebido como resposta que o batelão aguentava com mais peso que o do pessoal e material da coluna 13, deu-se início ao embarque cerca das 15H30. A distribuição da carga foi feita pelo proprietário que seguiu no batelão juntamente com a tripulação e o mecânico que procedera às reparações.

A travessia iniciou-se cerca das 16H30.

Quando se encontravam a meio do rio, duas das almadias, das três que suportavam a plataforma, tendo cada uma o seu motor, começaram a meter água e um dos motores parou.

Foi então ordenada, pelo proprietário, uma mudança de rumo que, ao contrário do pretendido, originou que a embarcação metesse ainda mais água e se afundasse em menos de um minuto. Eram cerca das 17HOO.

Agarrados a objectos que flutuavam e com auxílio generoso expontâneo de uma família autóctone que morava numa ilha perto - os Campíra - sobreviveram 50 homens.

Já de noite a notícia do desastre chegou a Mopeia tendo o Administrador e o pessoal do Destacamento Militar local prestado toda a assistência aos sobreviventes.

Avisadas as autoridades civis e militares, desenvolveu-se, logo a partir do dia seguinte, uma grande operação de busca de sobreviventes e de recolha e identificação de cadáveres em que se empenharam meios aéreos civis e militares, almadias tripuladas por autóctones, lanchas a motor e mergulhadores da Marinha.

Em 23 de Julho a situação era a seguinte:

- Militares falecidos e identificados, 68
- Militares falecidos, encontrados e não identificados, 23
- Militares desaparecidos, 9
- Militares sobreviventes ~150

Faleceram também o proprietário do Batelão e parte da tripulação.

Seguiu-se um período de recuperação do material (foram recuperados 8 Unimog 404 e 1 Unimog 411) e as transladações, solicitadas pelas famílias, dos corpos dos militares inicialmente sepultados no cemitério de Mopeia.

Nas conclusões do "Relatório Sumário sobre as causas prováveis do acidente que teve lugar durante a travessia do R. Zambeze por uma coluna militar, em 21 de Junho de 1969 e suas consequências elaborado pelo comando do Sector "D", é referido:

"A existência do batelão que transportou a coluna e a sua actividade eram ilegais;
- O batelão não oferecia as condições de segurança que se julgam indispensáveis;
- As condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze no dia, hora e local onde se deu o acidente não eram favoráveis às condições do batelão e à carga transportada;
- Admite-se que foram tomadas, na generalidade, medidas de segurança para evitar a deslocação de viaturas sobre a plataforma;
- O comportamento dos militares durante a travessia foi disciplinado e colaborante;

Consideram-se como causas prováveis do acidente as seguintes:

(1) Falta de condições de segurança do batelão;
(2) Más condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze;
(3) Manobra precipitada de mudança de direcção".

Este desastre tocou profundamente toda a população de Moçambique e também da Metrópole de onde era oriunda parte dos militares falecidos.
Contudo não deixaram de surgir comentários tendentes à atribuição de responsabilidades aos militares.

C.V.

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Notas do editor:

[1] - Vd. poste de 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)

Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)

domingo, 13 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 31 de Agosto de 2026:


Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes

No princípio da década de 90 começaram a ter lugar os primeiros convívios de Antigos Combatentes pertencentes à mesma companhia e/ou ao mesmo batalhão. Esta iniciativa partia sempre da boa vontade de alguns antigos combatentes. Por meados da década de 90, quando os convívios já eram moda, apareceu uma nova modalidade, mas sempre com os mesmos objectivos.

Esta nova modalidade consistia de um convívio entre todos os naturais de uma mesma freguesia, que tivessem participado na guerra do ultramar. Convívios desta natureza reuniam sempre um número de presenças muito elevado, porque eram abertos a residentes e não residentes. Na freguesia de Campia, com 182 antigos combatentes, as presenças eram sempre superiores à centena. Muitas foram as freguesias que aderiram a esta modalidade, havendo mesmo casos de algumas onde à falta de iniciativa por parte de antigos combatente era a própria junta da freguesia a tomar a seu cargo a organização de um convívio, como era o caso da Freguesia de Cacia no Concelho de Aveiro.

Muitas associações de antigos combatentes como é o caso da “Tabanca Grande” tiveram e muitas ainda tem, os seus convívios anuais.

O número de convívios atingiu no ano de 2014 o valor 360, publicitados, estando esse valor reduzido para o ano 2026 a 70 convívios aproximadamente. Tudo terá um fim no dia em que todos os antigos combatentes façam parte das hostes celestes da Paz e do Amor.

O nosso camarada da Tabanca Grande, Victor Barata, alfacinha, nascido na cidade de Lisboa foi encontrar noiva na aldeia onde eu nasci. Casou com uma filha da Amélia da Laja e do padeiro de Caveirós, neta materna da Senhora Dália Campos, segunda prima direita da minha avó.

A encosta norte da serra do Caramulo é riquíssima em granitos de alta qualidade. Só para o pavimento do IP5 foram destruídos milhares de toneladas de granito azul transformadas em gravilha, sem que alguém gritasse, não destruam o património.

A Victor Barata procedeu à instalação de uma fábrica de serração de granitos e não de mármores como aparece num comentário do blogue. Só não está sepultado no cemitério de Campia por ter sido cremado na cidade de Viseu.

Nunca consegui que o camarada Victor Barata participasse nos convívios dos combatentes da freguesia de Campia. Uma divergência entre o Victor Barata e um dos quatro elementos da Comissão Organizadora de primeiro convívio realizado em Campia, Mário dos Santos Ferreira, Furriel de Transmissões da Companhia que estava sediada em Ingoré no ano de 1965.
O Mário dos Santos Ferreira, meu companheiro de carteira da primeira, dois anos, até à quarta classe não era pessoa fácil.

A divergência teve origem na aquisição de duas placas em granito, com a inscrição, “Ditosa Pátria que tais filhos tem” para serem colocadas nas campas dos dois mortos em combate, que estão sepultados no cemitério de Campia. Sendo amigo dos dois, tentei por mais que uma vez, sempre que me cabia a organização do próximo convívio, a reconciliação, mas sem resultados.

Sinto cada vez mais dificuldade em aceitar que amizades com mais de 30, 40, 50 anos, possam desaparecer por uma pequena quezília que não vale umas míseras cascas de alhos.

Como consequência destes convívios surgiu também a iniciativa do levantamento de Marcos Históricos aos antigos combatentes. Estes pequenos monumentos foram erguidos a nível de freguesia, como é o caso Campia, a nível de concelho e também a nível nacional como é o caso do Bom Sucesso em Lisboa. Também estes monumentos foram patrocinados pelos antigos combatentes como é o caso de Campia, por Autarquias Locais e também por outras entidades.


Este Monumento aos Antigos Combatentes, naturais da freguesia de Campia foi custeado pelos próprios Combatentes. A Junta de Freguesia de Campia cedeu o terreno e a Câmara Municipal de Vouzela honrou-nos com uma presença no dia da inauguração (13-11-1999).

Quase ao virar da esquina como nos indica a gíria popular, já no ano de 2025 surge uma iniciativa de um antigo combatente, Alferes Miliciano em Angola, natural de Macieira-a-Velha, freguesia de Macieira de Cambra do concelho de Vale de Cambra, de seu nome Martinho Tavares de Almeida, Professor de Educação Física Aposentado. A cidade de Vale Cambra faz parte da Área Metropolitana do Porto.

Com a colaboração de um Grupo de patrocinadores encabeçado pela Câmara Municipal de Vale de Cambra, este antigo combatente decidiu levar a cabo a seguinte tarefa:
Fazer uma recolha ao nível do Concelho de Vale Cambra de dados relativos a todos os naturais que tivessem participado na Guerra do Ultramar. Para além dos dados pessoais também foram recolhidos dados relativos ao Posto e à frente de combate onde teve lugar a sua participação.

À semelhança do que é pedido na adesão à Tabanca Grande também aqui foi usado o mesmo critério em relação à entrega de fotos.
A partir da recolha efectuada, foi feita a edição de um livro em formato A4 com uma primeira tiragem de 1500 exemplares, com 512 páginas e um peso superior a 2 quilos.

Cada um dos Antigos Combatentes ainda vivos, recebeu um exemplar de forma gratuita. Todos os familiares dos Antigos Combatentes já falecidos, que colaboraram com a iniciativa receberam do mesmo modo um exemplar de forma gratuita como é o meu caso.

As duas imagens a seguir mostram a frente e o verso da obra que foi feita a partir desta brilhante iniciativa.

Frente do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra
Contracapa do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra

A todos os antigos combatentes a quem foi concedido o privilégio de regressar à sua origem sem ser dentro de um caixote, lutaram para serem os melhores, para terem o reconhecimento daquilo por que passaram em defesa dos ideais da época.
De nada lhes valeu, cada vez valem menos e a cada vez que aparece algo de benesse para antigos combatentes logo aparecem as discórdias a gritarem que os antigos combatentes não são pessoas de bem.

É público de que os antigos combatentes não pagam medicamentos. Não é verdade porque apesar de existir na Constituição um Artigo 13.º que diz que somos todos iguais. Há a possibilidade de serem produzidos medicamentos para pobres e para ricos. O antigo combatente não paga medicamentos se apenas usar os medicamentos para pobres. Em caso contrário paga como pagam os outros.[1]

O livro faz referência a todas as figuras do Estado Novo que durante 13 anos conduziram a Guerra, às grandes operações, tais como a tomada da Pedra Verde e a Operação Mar Verde, às grandes catástrofes como afundamento de uma jangada que vitimou mais de uma centena[2], e a tragédia do Chão Manjaco. É de igual modo feita uma referência a todos os intervenientes do lado oposto.

Tenho muita pena que não exista em todos os restantes concelhos deste país um Alferes Martinho Tavares de Almeida com capacidade para levar a bom porto uma nau com tanta carga. Até à página 225 este livro é de uma enorme riqueza para quem gosta de História.

Nas primeiras 225 páginas há espaço para:

- 1. O Império Ultramarino e o Estado Novo
- 2. Factos que antecederam o Conflito Armado
- 3. Período anterior ao início do Conflito Armado
- 4. Início do Conflito Armado em Angola
- 5. Principais protagonistas
- 6. Teatros de operações
- 7. Movimentos independentistas
- 8. Grandes operações
- 9. Meios terrestres aéreos e navais
- 10. Quarteis e aquartelamentos
- 11. Armas de combate. Perfeita elencagem de todas as armas com ilustração de todas as armas usadas de ambos os lados.
- 12. Minas. A chamada guerra subterrânea
- 13. Alguns números da Guerra do Ultramar
- 14. As grandes tragédias
- 15. As nossas Enfermeiras na Guerra do Ultramar
- 16. A missão do movimento nacional feminino
- 17. O papel da Igreja no conflito
- 18. Factos relevantes
- 19. Personalidades que exerceram funções de chefia e comando envolvidas na guerra do ultramar
- Da página 226 até à página 463 foram colocadas todas as fotos acompanhadas de um pequeno perfil de todos os antigos combatentes do concelho de Vale de Cambra.

O segundo da última fila é o autor desta brilhante obra (Alferes Mil Martinho Tavares de Almeida)

- Da página 464 em diante estão transcritos os louvores atribuídos a todos antigos combatentes naturais de Vale de Cambra.
- Uma lista de todos os falecidos.
- Lista de feridos graves acompanhada de alguns depoimentos.
- Notícias publicadas em alguns jornais da época.


Para terminar deixar um grande abraço com elevado reconhecimento ao Autor
Os meus mais sinceros parabéns Dr. Martinho Almeida.


Artur Conceição
SPM 2578


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2 . Notas do editor Carlos Vinhal:

[1] - Peço desculpa ao amigo Artur Conceição, mas por uma questão de justiça, venho afirmar que é incorrecto dizer-se que os Antigos Combatentes só têm direito a medicamentos para pobres. Em Portugal não há medicamentos para pobres e para ricos. Uma vez que há muita falta de informação e desinformação a mais, esclareço, a título pessoal, que o Estado comparticipa os Antigos Combatentes a 100% o preço de referência de todos e quaisquer medicamentos receitados e comparticipados pelo SNS, genéricos ou de marca.
Os utentes do SNS, em geral, não saberão, nem se aperceberão, de que há medicamentos cujo PVP (preço de venda ao público) é superior ao PR (preço de referência). O SNS, nestes medicamentos, só comparticipa o PR, ficando a diferença a cargo do utente. Nunca dei conta de ver no balcão da farmácia alguém perguntar porque está a pagar aquela importância e não menos.
Com os Antigos Combatentes passa-se o mesmo, às vezes pagamos uns cêntimos por causa da tal diferença, mas porque se intuiu que nos comparticipam (sempre) 100% do preço dos medicamentos, reclamamos por falta de conhecimento.
Um exemplo prático: o reumatologista receitou-me Lepicortinolo (um medicamento de marca, não genérico), cujo preço de venda ao público é 3,82€ e o preço de referência é 2,80€. Perante isso, paguei a diferença, 1,02€, sendo comparticipado a 100% do preço de referência.
Também não é justo dizer-se que os Medicamentos Genéricos têm uma eficácia inferior aos de marca. Está provado cientificamente que é mentira. Eu sou um dos que opta sempre pelos genéricos. O SNS não nada em dinheiro, cabendo a cada um de nós zelar pela sua sobrevivência.
Aconselho a leitura atenta do nosso Poste de 6 de Janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26354: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (109): Portaria n.º 372-C/2024/1, de 31 de Dezembro que estabelece as condições de acesso dos Antigos Combatentes a uma percentagem adicional de comparticipação sobre a parcela não comparticipada dos medicamentos pelo SNS

[2] - Aqui não sei se o nosso amigo Artur se se está a referir ao desastre da jangada durante a travessia do rio Corubal. Se sim, e se considerarmos vítimas os camaradas falecidos, foram 43.

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Nota do editor

Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)


Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.


1.
Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 30 de Agosto de 2026:



Couves para a Ceia  de Consoada


Numa cerimónia de divulgação de um livro, escrito por um dos nossos camaradas, que teve lugar no Bairro Grandela em Benfica, ouvi uma frase daquelas que nunca mais se esquecem.

Um dos presentes afirmou, para quem quis escutar, de que nos Natais da Guiné nunca faltaram couves para acompanhar o bacalhau e as batatas na Ceia de Natal. Ele próprio teria passado a véspera de Natal dentro de uma avioneta a distribuir couves por todos os aquartelamentos da Guiné.

No Natal do ano de 1965 passado em Jumbembem, penso que ninguém se terá preocupado muito com a existência ou não das couves para a ceia da consoada.

Tomate e alface eram a minha especialidade e também a minha praia e penso nunca ter deixado créditos em mãos alheias. Batatas eu sei que não valia a pena semear/plantar porque elas trepavam pelas árvores acima procurando um lugar para colocar os frutos.

Em elação às couves, percebi no Natal de 1966 a razão porque não tinha comido couves no Natal do ano anterior, e a resposta é muito simples. Não houve couves porque ninguém as plantou, nem alguém as lá foi levar.

Jumbembem era terra fértil, onde numa pequena bolanha se produzia arroz. Na zona mais enxuta era produzido com grande êxito milho, abóboras e amendoim.

Do lado direito da estrada que ligava o Quartel General ao Hospital Militar 241, ficava sediada a Granja Agrícola de Bissau, onde eram produzidas couves portuguesas de muito elevada categoria. Fui convidado para uma visita e fiquei admirado com aquilo que vi.

Não nasci no Alentejo, mas também me serve a carapuça mencionada nesta anedota.

No meio de uma grande herdade alentejana estava um grupo de trabalhadores agrícolas, aos quais dois regentes agrícolas perguntaram:

- Este terreno é bom para milho?
- Não, não dá nada!
- E é bom para trigo?
- Não, não dá nada!
- E é bom para girassol?
- Não, não dá nada!
- Mas já semearam?
- Não, isso ainda não fizemos!

Quando o Artur pediu semente de alface e semente de tomateiro, porque não pediu também sementes de muitos outros produtos hortícolas? E o nosso camarada piloto que andou a distribuir couves na véspera de Natal pelos aquartelamentos da Guiné, porque não foi dois meses antes distribuir “pranta” e cada Companhia, que as plantasse e regasse para ter couves com fartura para a noite de consoada.

Não morro de amores por couves, preferindo antes admirar uma boa horta cheia de novidades fresquinhas.

Tanto os alentejanos como os beirões só percebiam de alface e tomate.

Os meus saberes em termos de agricultura e culinária são bastante limitados, embora tenha alguns muito especiais como descrevo nos exemplos a seguir:

Saberes (e sabores):

- Deem-me uma tonelada de azeitona e digam-me onde fica o lagar de fazer azeite e eu devolvo todo o azeite que a azeitona der;

- Deem-me uma cabeça de porco, uma ou duas chouriças, um bocadinho de presunto, uma malga de feijão de luar, uma ou duas cenouras, uma couve lombarda ou coração de boi e eu devolvo uma feijoada como nunca se viu;

- Deem-me um alqueire de milho, digam-me onde fica o moinho, parado e à espera que eu chegue, e eu prometo que devolvo um alqueire de farinha;

- Deem-me 60 metros quadrados de terra fértil e uma malga de linhaça e prometo que coordeno todas as tarefas até a toalha de Linho chegar ao altar;

- Mas se me derem dez metros de tecido de lã para levar ao Pisão, então podem ficar com a certeza de que serão entregues os dez metros de tecido tal como foram recebidos. Nunca vi tal coisa a trabalhar. Só sei, que tal como o moinho também é movido a água.

Artur Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
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Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores
Um pequeno texto para recordar.

O meu Grande Abraço
Com votos de muita saúde para todos
Artur António da Conceição



A minha ida para o serviço militar obrigatório

A minha ida para cumprimento do serviço militar obrigatório não me retirou hábitos de trabalho, diria mesmo que talvez por uma questão relacionada com o sistema nervoso, terá dado o seu contributo.

Durante vários meses do ano de 1964, enquanto estive no Regimento de Infantaria 11 na cidade de Setúbal, tinha a missão de atender às 8 e às 18 horas uma chamada via rádio relacionada com a segurança da Região Militar.

Como tinha muito tempo disponível, durante o dia ia trabalhar para o Conselho Directivo, onde havia sempre muita coisa para fazer.
Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.

Durante os dois anos de estadia na Guiné e no tempo de Jumbembem fazia a escala de serviço da qual fazia parte, fazia a manutenção das baterias, fazia os autos de destruição, fazia a requisição de material, fazia a gestão de stocks e ainda tinha tempo para tratar da horta de onde vinha o tomate e a alface para a salada destinada à secção de transmissões e para a Messe de Oficiais.

Permitam-me que aqui recorde, com a mesma amizade e admiração, dois dos Furriéis mais “malandros” e da mesma forma os dois mais “trabalhadores”.

Começando pelos dois com que não era possível contar com eles, para fazer qualquer coisa de jeito temos:

O Furriel de Manutenção Auto, Ilídio Barros dos Reis. Um grande abraço.
O Furriel de Transmissões, Higino José Gama Passos, que era natural da Ilha da Madeira. Um grande abraço meu Furriel.

Agora os dois que inventavam algo para ocuparem os seus tempos livres.

O Furriel José Joaquim Nunes da Venda, atirador.
O Furriel Amadeu Júlio Neves Cruz, atirador.

Os restantes jogavam à lerpa durante os seus tempos livres, onde se obtinham lucros que davam para uma viagem à Metrópole. O meu abraço para todos.

Permitam-me agora um especial realce para o Senhor Furriel Amadeu Cruz.

Sendo atirador, desempenhou com a mais elevada competência, a função de Vaguemestre durante muito tempo da sua estadia em Jumbembem.

Encontrei-o em 1973 como gerente de uma loja de uma famosa marca de móveis em Lisboa. “Móveis Baía”.

Encontrei-o mais uma vez num almoço do Batalhão 733, que teve lugar na Cidade de Lagos no Algarve.

Ao aproveitar para enaltecer as qualidades do Amigo Amadeu Cruz, tive como resposta palavras que nunca mais esquecerei.

- Enquanto estive a cumprir o serviço militar senti-me sempre em serviço. Enquanto estou em serviço não bebo. Daí que durante todo o tempo que estive na tropa nunca apanhei uma bebedeira.

De todos os Sargentos e Oficiais da CART 730, todos nascidos em 1943 ou antes, só tenho conhecimento do falecimento do Furriel Vira, natural de Setúbal. Descansa em PAZ.

Damaia, 16 de julho, 2026
Artur Conceição

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Nota do editor

Último post da série de 16 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores.

Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.

Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.

O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição



História da Pista de aterragem de Jumbembem

Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.

A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.

Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.

A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.

A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.

O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.

A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.

Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.

Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.

Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.

A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.

O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.

Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.

Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.


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Posição relativa de Jumbembem na estrada Farim-Colina do Norte. © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné


Mote para a Pista

Primeiro interveniente

Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.

O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.

Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.

Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.


Segundo interveniente

O Luís é que escreve o seguinte:

"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."

Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.

Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.

Em 2014


O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.

Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.

São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:

1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.

2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.

3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI

O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.


Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.

1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.

2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.

3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.

Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.

Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.

Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.

Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.

Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.

Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.

Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.

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Nota do editor


Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:

Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.

Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Como era Jumbembem no ano de 1966

Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.

No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.

Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.

A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.

Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.

Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.

Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.

Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.

A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.

Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.

Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.

O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.

É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565

Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]

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Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.

Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.

No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.

No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.

Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.

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Notas do editor:

[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:

14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)

18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27570: Retalhos da vida militar (4): Aconteceu há 60 anos, um presépio em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:

Aconteceu há 60 anos

No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.

Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.

O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965

O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.

Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.

Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.

Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.

Artur Conceição
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Nota do editor

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27543: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (9): Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816; Artur Conceição, ex-Sold TRMS da CART 730/BART 733 e Jorge Araújo, ex-Fur Mil Op Esp da CART 3494/BART 3873

1. Mensagem natalícia do nosso camarada Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816 (BissorãOlossato e Mansoa, 1965/67), com data de 17 de Dezembro de 2025:

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2. Mensagem natalícia do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 17 de Dezembro de 2025:

Para todos os jovens da Tabanca Grande e suas famílias votos de um Feliz Natal e de um Novo Ano com muita Saúde, muita Paz e Muito Amor

Artur Conceição

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3. Mensagem natalícia do nosso camarada Jorge Araújo, ex-Fur Mil Op Esp da CART 3494 / BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/1974), com data de 18 de Dezembro de 2025:

Caro Luís, bom dia,
Agora em Abu Dhabi, depois de termos passado um pequeno período de férias académicas no Índico.
Aproveito este contacto para enviar o meu postal de BOAS FESTAS, para ti e para os membros da "TABANCA", desejando a todos um SANTO NATAL e um melhor ano de 2026, na companhia daqueles que nos estão próximo, com muita saúde e algum patacão.
Anexo, ainda, duas fotos com um enquadramento natalício no interior do Reem Mall (centro comercial cá do burgo).


Um grande abraço de amizade para todo o colectivo.
Jorge Araújo + Maria João

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Nota do editor

Último post da série de 17 de Dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27540: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (8): Feliz Natal e um 2026 cheio de Afectos com Letras (Associação Afectos com Letras, ONGD)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26392: Nunca Tantos Deveram Tanto a Tão Poucas (2): O que é feito de ti, Maria Rosa Exposto ?... "Nunca vos esqueci nem esquecerei", escreveu ela em depoimento para o livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas", 2ª ed., 2014, pág. 403)


Guiné > Região do Oio > 
Jumbembem > CART 730 (1964/66) e CCAÇ 1565 (1966/68) > Domingo, 10 de julho de 1966 > Um dia trágico: pormenor da evacuação do cap mil inf Rui Romero, na foto a ser transferido para a maca do helicóptero Alouette II... A enfermeira paraquedista é (pou parece ser)  a alf Maria Rosa Exposto. (*)

Em primeiro plano, de costas, e quico na mão, o 1.º cabo operador cripto Florival Fernandes Pires, natural de Portalegre, que foi, com o Artur Conceição, sold trms, uma das primeiras testemunhas das circunstâncias trágicas em que morreu o cap mil inf Rui Anónio Nuno Romero, cmdt da CCAÇ 1565, de 32 anos, casado, pai de 2 filhas menores, natural de Portalegre, residente em Lisboa, filho de pai militar, desenhador de construção civil a frequentar o curso de arquitetura quando foi chamado para o curso de capitães.

O Artur Conceição estava a 2 metros do local da tragédia. Embora já cadáver, o corpo do malogrado oficial foi levado de helicóptero para o Hospital Militar de Bissau  e o funeral realizou-se um mês e tal depois em Lisboa, no cemitério do Alto de São João. A enfermeira na foto parece ser a Rosa Exposto, do curso de 1964, segundo apurámos junto do nosso camarada Miguel Pessoa e das nossas camaradas enfermeiras paraquedistas Giselda Pessoa e Maria Arminda.

A CCAÇ 1565 foi mobilizada pelo RI 1, partiu para o TO da Guiné em 20/4/1966, e regressou a 22/1/1968. Esteve em Bissau, Jumbembem, Canjambari e Bissau. Comandantes, além do cap mil inf Rui António Nuno Romero: cap inf José Lopes e cap mil inf José Alberto de Sá Barros e Silva (vivia em Lisboa em 2007).

Por sua vez, a CART 730 / BART 733, foi mobilizada pelo RAL 1, partiu para o TO da Guiné em 8/10/1964, e regressou a 14/8/1966. Pasou por Bironque, Biossorã, Jumbembem e Farim, Foi seu comandante o cap art Amaro Rodrigues Garcia. O BART 733 esteve em Bissau e Farim.

Foto ( e legenda): © Artur Conceição (2007). Todos os direitos reservados.  [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 726 (Out 64 / Jul 66) > O pessoal em operações militares: na foto, acima, transporte às costas de um ferido, evacuado para o HM 241, em Bissau, por um helicóptero Alouette II (versão anterior do Alouette III, que nos era mais familiar, sobretudo para aqueles que chegaram à Guiné a partir de 1968).

Maria Arminda Santos: (...) "A partir daí a guerra na Guiné estava instalada e assim que foi possível fomos colocadas na Base de Bissalanca, para o início das evacuações aéreas com enfermeiras. Havia os aviões Auster e os helicópteros Alouette II; nestes não nos era possível acompanhar de perto os feridos, os quais eram transportados fora do helicóptero, numa espécie de caixas colocadas por cima dos patins do heli, uma de cada lado. Nos Auster a maca quase entrava pela cadeira ao lado do piloto e na cauda do avião.

"Felizmente mais tarde chegaram os DO-27 e os Alouette III, onde passámos a fazer inúmeras evacuações, adaptando e modificando os meios sanitários e a nossa actuação, com a finalidade de uma mais eficaz prestação de cuidados aos feridos, os quais iam sendo cada vez em maior número. Infelizmente tivemos que chegar a fazer evacuações no Dakota, quando havia ao mesmo tempo muitos feridos e a pista era adequada para a sua aterragem." (...)  (**)

Foto (e legenda): © Alberto Pires (Teco) / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Maria Rosa Exposto, ex-alf grad enfermeira paraquedista

Brevet nº 2846, 26-4º enf nov 64




1. O que é feito de ti, Maria Rosa Exposto ? Há tempos correu, por aí,  pelos "mentideros" das redes sociais, a notícia da tua morte... O que nos deixou sobressaltados... Boato ? Mentira ? Verdade ? Quem desejaria a tua morte, a ti, que salvaste tantas vidas ?!... 

Mas nenhuma das tuas antigas camaradas (a Rosa Serra, a Maria Arminda, a Giselda...) puderam confirmar ou infirmar essa infeliz notícia, que esperamos, de todo o coração, seja falsa.

Infelizmente, não temos dados biográficos detalhados sobre ti, Rosa. Não sabemos onde vives. E o que é feito de ti... Havia três enfermeiras paraquedistas com o nome ou apelido Rosa: 

  • a Rosa Serra (que é membro da nossa Tabanca Grande, minhota de V. N. Famalicão);
  • Maria Rosa Mota (com o casamento, Maria Rosa Mendes) (que vive em Faro, presumindo nós que é algarvia);
  • e tu, Maria Rosa Exposto (transmontana de Bragança, dizem-nos).
Sabemos que fizeste  a tua primeira comissão na Guiné. Como alferes graduada. Estiveste com a Maria Arminda. Republicamos acima  uma foto em que tu apareces na evacuação do cap mil inf Rui Romero, "vítima de acidente com arma de fogo", em 10 de julho de 1966. 

É muito provável que depois da Guiné tenhas passado também pelos TO de Angola e Moçambique. E, tudo indica, pelos dois ou três teus escritos (no vosso livro, "Nós, enfermeiras paarquedistas", 2ª ed., 2014) que tenhas voltado à Guiné em 1969.

Sabemos pertenceste ao 4º curso (1964) (o 5º Curso foi em  1966). Segundo tu própria nos contas, no livro "Nós, as enfermeiras paraquedistas", a tua "primeira comissão foi na Guiné, após um pequeno 'estágio' nos Açores" (pág, 175). Não dizes o ano, mas terá sido em 1966, a avaliar pela foto que nos mandou o nosso camarada Artur Conceição (que vive na Amadora, ex-sold trms, CCAÇ  730, 1964/66).E a Maria Arminda confirma.

Sabemos que és transmontana de Bragança. E estudaste enfermagem em Coimbra (pág. 175), na então Escola de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca (hoje integrada, desde 2004, na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra).

A Rosa Serra (que foi a corrdenador do vosso livro) não também não me soube responder a algumas questões que lhe pus a teu respeito. Sabe que tu eras mais velha (a Rosa Serra nasceu en 1946, tu provavelmente em 1940/41). E, há uns anos atrás, quando te telefonou, ficou a saber que já eras viúva e tinhas um filho. A Maria Arminda não falava  contigo  há um ano. Sabia que vivias para os lados de Portalegre. 

Também não sabemos qual era o teu apelido de casada. Mas tudo indica que o teu nome completo seja Maria Rosa Exposto Olivença.  Encontrei-o no "Diário da República" (II Série, nº 168, de 24/7/1986): foste promovida, por progressão na carreira, desde 1/1/1986, à categoria de enfermeira de grau 1, 3º escalão, do quadro geral do pessoal civil da Força Aérea... Terás lá ficado até quando ? 

Participaste  no livro "Nós, as enfermeiras paraquedistas" (2014). Desse livro vamos destacar o seu testemunho de vida (pág. 403).

Não te conhecemos pessoalmente. Mas queremos que te juntes a nós, com os amigos e camaradas da Guiné, queremos que se sentes à sombra do nosso mágico e fraterno poilão, ao lado da Giselda, da Rosa Serra, da Maria Arminda, da Aura Teles e da Ivone Reis (que infelizmente já morreu em 2022).

Recordemos que terminas o teu depoimento, para o vosso livro coletivo, com um agradecimento à FAP pela oportunidade que te deu de te realizares como ser humano e como enfermeira, e com palavras de grande nobreza para com aqueles com quem trabalhaste e conviveste: "Nunca vos esqueci nem esquecerei!"...

Não nos cansamos de lembrar, no nosso blogue, que  vocês, as ex-enfermeiras paraquedistas, são as únicas mulheres a quem, "de jure" e "de facto", podemos chamar camaradas de armas, no sentido puro e duro da etimologia da palavra...  




Fonte: "Nós, enfermeiras paraquedistas", 2ª ed., org. Rosa Serra, prefácio do Prof. Adriano Moreira (Porto: Fronteira do Caos, 2014), pág. 4032 (com a devida vénia)  (***)

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Notas do editor:



(**) Vd. postes de